Resumo
A obesidade tornou-se um grande desafio de saúde mundial e a expectativa é que ela se dissemine ainda mais.1 No total, o número de pessoas com sobrepeso e obesidade no mundo aumentou de 857 milhões em 1980 para 2,1 bilhões em 2013.2 Os pacientes obesos apresentam um determinado conjunto de desafios e demandam cuidados perioperatórios específicos por apresentar um risco mais alto de complicações. Além disso, colocar pacientes obesos em posição supina reduz ainda mais a complacência respiratória. É por isso que diferentes métodos de ventilação e posicionamento devem ser usados para melhorar a pré-oxigenação, a indução e a recuperação. Com base na literatura atual, vários métodos de ventilação e posicionamento permitem reduzir o risco de complicações.
Ventilação protetora de pacientes obesos durante anestesia geral
—À medida que a obesidade aumenta no mundo, os pacientes cirúrgicos obesos representam um desafio cada vez maior para os médicos da sala cirúrgica. A obesidade, especialmente a obesidade mórbida (índice de massa corporal superior a 40 kg/m2), causa redução dos volumes pulmonares, atelectasias significativas nas regiões dependentes dos pulmões e desequilíbrio da relação ventilação/perfusão. Ao mesmo tempo, o consumo de oxigênio e o trabalho respiratório aumentam.³ Isso amplia os riscos associados à anestesia geral e torna os pacientes obesos propensos a complicações pré-operatórias graves.³ Assim, pode ser considerada uma estratégia alterada para pré-oxigenação e indução de pacientes obesos, uma vez que a dessaturação dos pulmões ocorre rapidamente, e o manuseio das vias aéreas pode ser difícil.

Obesidade durante a fase de indução: o que é preciso ter em mente
A indução da anestesia padrão inclui um breve período de pré-oxigenação seguido pela injeção de anestésicos, um teste de ventilação manual e a intubação endotraqueal ou colocação de via aérea supraglótica. Essa abordagem convencional é adequada para a maioria dos pacientes. Mas a obesidade pode complicar a oxigenação e a ventilação perioperatórias dos pacientes cirúrgicos e é um fator de risco frequentemente mencionado para a ventilação por máscara e/ou a intubação traqueal4. Além dos desafios técnicos, os volumes pulmonares reduzidos (por exemplo, CRF), o aumento no desequilíbrio da relação ventilação/perfusão e as comorbidades respiratórias elevam o risco da indução anestésica e do manuseio das vias aéreas para eventos hipoxêmicos e outras complicações respiratórias5. Por isso, pacientes obesos podem demandar abordagens personalizadas à fisiologia deles antes, durante e depois da cirurgia.

Pré-oxigenação e indução efetivas em pacientes obesos
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Está cada vez mais claro que os pacientes obesos precisam de cuidados específicos durante cirurgias. Veja nosso resumo sobre tratamento pré e pós-operatório de pacientes obesos.
Ventilação intraoperatória de pacientes obesos: minimizar riscos pulmonares pós-operatórios
As peculiaridades anatômicas e fisiológicas da obesidade afetam todo o processo da anestesia geral. Isso é especialmente verdadeiro quando o paciente está na posição supina ou na posição de Trendelenburg. A capacidade residual funcional (CRF) e a relação ventilação perfusão podem ser significativamente reduzidas em razão do maior número de atelectasias. Isso pode resultar em complicações pulmonares pós-operatórias severas.
Para prevenir essas complicações, a ventilação protetora intraoperatória é essencial. Para evitar atelectasias e garantir a ventilação suficiente ao aplicar os parâmetros recomendados (especialmente pressões baixas), uma manobra de recrutamento alveolar (MRA) permite que a complacência pulmonar aumente ou até normalize. Quando realizado apropriadamente, a MRA aumenta a CRF abrindo as áreas atelectásicas dos pulmões, prevenindo assim a hipoxemia, ao mesmo tempo em que melhora a saturação de oxigênio e a complacência das vias aéreas.

Ventilação intraoperatória de pacientes obesos
Este artigo técnico dedica-se à ventilação durante a fase de manutenção da anestesia. Obtenha uma visão geral de aspectos clínicos importantes para minimizar os riscos para pacientes obesos durante a ventilação intraoperatória e leia mais sobre opiniões de especialistas e dicas práticas sobre vários aspectos da ventilação protetora para pacientes obesos na sala cirúrgica.
Pacientes obesos durante a recuperação e a fase pós-operatória
Os pacientes obesos não precisam apenas de abordagens adaptadas durante a pré-oxigenação, indução e manutenção da anestesia geral. Técnicas de cuidados respiratórios modificados no pós-operatório imediato também se mostraram importantes na prevenção de complicações pulmonares pós-cirúrgicas.

Riscos
Os pacientes obesos que sofrem de apneia obstrutiva do sono (AOS) ou de síndrome de hipoventilação por obesidade (SHO) podem ter maior risco de complicações pulmonares pós-operatórias (CPP), pois a sensibilidade aos opiáceos aumenta a severidade da hipóxia noturna.6
Eles também têm maior probabilidade de desenvolver insuficiência respiratória aguda pós-operatória e taxas mais altas de pneumonia. Pacientes com obesidade mórbida são conhecidos por apresentarem significativamente mais atelectasia de longa duração no pré-operatório quando comparados a pacientes não obesos.7 Isso aumenta ainda mais o trabalho respiratório, pois o paciente respirará com volumes pulmonares menores. Por sua vez, esse fato está associado ao fechamento precoce das vias aéreas e às limitações do fluxo expiratório, resultando no desenvolvimento de PEEP intrínseca (PEEPi). Esses fatores pioram na posição supina: possivelmente um desafio na sala de recuperação.6

Recomendações
Considerando esses fatores, os pacientes obesos devem ser mantidos em posição elevada, como a posição de Trendelenburg reversa, ou com a cabeça e o tronco elevados. Isso ajuda a mitigar os efeitos da pressão intra-abdominal nos pulmões e melhora a oxigenação e a complacência pulmonar. A ventilação não invasiva (VNI) também pode ser benéfica, pois ajuda a restaurar e manter os volumes pulmonares, particularmente em pacientes com obesidade mórbida. O CPAP aplicado imediatamente depois da extubação, em comparação com a recuperação tardia, pode ajudar a melhorar a espirometria. A VNI é segura e viável. Um estudo demonstrou uma redução de 16% no risco de insuficiência respiratória pós-extubação pela aplicação de VNI imediatamente após a extubação dos pacientes com IMC > 35. Além disso, são recomendadas a mobilização no início do pós-operatório e a fisioterapia respiratória.6

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Fontes
1 Candiotti K, Sharma S, Shankar R. Obesity, obstructive sleep apnoea, and diabetes mellitus: anaesthetic implications. Br J Anaesth 2009;103 (Suppl. 1):i23–30.
2 Ng M, Fleming T, Robinson M, et al: Global, regional, and national prevalence of overweight and obesity in children and adults during 1980-2013: a systematic analysis for the Global Burden of Disease Study 2013. Lancet 2014;384:766-781.
3 Pelosi P, Croci M, Ravagnan I, et al. The effects of body mass on lung volumes, respiratory mechanics, and gas exchange during general anesthesia. Anesth Analg 1998;87:654–60.
4 Pelosi P, Gregoretti C. Perioperative management of obese patients. Best Pract Res Clin Anaesthesiol. 2010;24(2):211–225.
5 Santesson J. Oxygen transport and venous admixture in the extremely obese. Influence of anaesthesia and artificial ventilation with and without positive end-expiratory pressure. Acta Anaesthesiologica Scandinavica 1976; 20: 387–94.
